Taiwan voltou a acusar a China, nesta quarta-feira (7), de prometer vacinas contra a Covid-19 ao governo do Paraguai em troca do fim do apoio diplomático do país sul-americano ao território que Pequim considera uma província rebelde. O Paraguai é um dos 15 países que ainda mantêm laços formais com Taiwan a despeito da campanha chinesa que afirma que a ilha não tem direito a reconhecimento diplomático.


De acordo com o chanceler taiwanês, Joseph Wu, o regime de Xi Jinping está “flexionando os músculos” com sua diplomacia de vacinas, especialmente na América do Sul e Central, onde estão alguns dos principais aliados remanescentes de Taiwan. “Se você olhar para os países que estão recebendo as vacinas chinesas, como Brasil, Chile ou El Salvador, acho que isso está tendo muito impacto sobre nossos aliados diplomáticos”, disse Wu, citando três países que já não fazem parte do restrito rol de apoiadores da causa taiwanesa.


No Paraguai, em particular, o chanceler disse que Pequim foi “muito ativa” em dizer que, caso o país rompesse os laços com Taiwan, receberia milhões de doses das vacinas chinesas. “Isso gerou muita pressão sobre o governo do presidente Mario Abdo Benítez e também gerou muita pressão sobre nós para encontrar o apoio necessário”, disse Wu, antes de acrescentar que a oposição política do Paraguai está “muito disposta a vincular-se à China”.

Abdo Benítez tornou-se alvo de protestos em março devido a acusações de má gestão na resposta à pandemia após o agravamento da crise sanitária no país. A instabilidade política no Paraguai gerou um pedido de afastamento do presidente que, apesar da onda de protestos nas ruas, acabou sendo arquivado. Ainda no mês passado, o chanceler paraguaio foi à Brasília para pedir, além de apoio ao seu presidente, aliado político de Jair Bolsonaro, doações de medicamentos e vacinas contra a Covid-19. Voltou para Assunção de mãos vazias, embora os detalhes da conversa não tenham sido divulgados pelo Palácio do Planalto.

Alerta
Há duas semanas, o Ministério das Relações Exteriores do Paraguai divulgou um comunicado em que alerta sobre “ofertas de empresas, intermediários e outros atores privados” que se identificam como representantes da China para o fornecimento de vacinas contra o coronavírus. De acordo com o documento, “existem graves dúvidas quanto à autenticidade das referidas representações”, que estariam condicionando a soberania do Estado paraguaio ao insinuar a ruptura das relações com Taiwan como requisito para a compra de vacinas chinesas.


O comunicado, ao mesmo tempo em que isenta Pequim da responsabilidade sobre as tais ofertas, denota que o Paraguai não está disposto a fazer esse tipo de negociação política. “Um angustiante cenário humanitário, como o causado pela pandemia que nos atinge, não deve servir para satisfazer mesquinhos interesses setoriais, nem para manipular ou forçar ações específicas por parte dos Estados, aproveitando seus esforços para proteger a saúde de suas populações, com o único propósito de buscar um lucro político ou econômico”, diz o texto.


Nesse cenário, Taiwan iniciou conversas com países como Japão, Estados Unidos e Índia, segundo Wu, para conseguir atender parte da urgente demanda dos paraguaios e, assim, driblar a pressão chinesa. O governo indiano doou, no final de março, 100 mil doses do imunizante Covaxin, produzido pelo laboratório Bharat Biotech. Outras 100 mil doses, de acordo com o chanceler taiwanês, devem ser enviadas ao país em breve.

Protestos
Enquanto os paraguaios iam às ruas contra seu presidente, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, encorajou o país a “continuar trabalhando com seus parceiros democráticos regionais e globais, incluindo Taiwan, para superar a pandemia, combater a corrupção e aumentar a transparência”. A China nega qualquer tentativa de atrair o Paraguai por meio do oferecimento de vacinas. A porta-voz da diplomacia chinesa, Hua Chunying, disse que os relatos fazem parte de uma campanha de desinformação orquestrada por Taiwan.

FONTE: O ESTADO CE